Lírios do deserto (Projeto Oriente Médio)

    
  O Oriente Médio é uma região formada por 17 países com aproximadamente 260 milhões de pessoas. A maioria são muçulmanas. MISSÕES ADFLORIPA também está lá em um dos desses países por intermédio da missionária Ane (nome fictício, por questões de segurança). Ela nos conta um pouquinho de seu trabalho e de suas percepções em uma das regiões mais desafiadoras do mundo para a proclamação da mensagem do Evangelho: 

                              
   "O contato com os refugiados é algo que muda a vida de todos aqueles que têm a oportunidade de vivenciar essa experiência. Lembro-me de quando tive esse primeiro contato em meados de 2015. Eu estava habituada a ir à um país “religiosamente livre” no Oriente Médio. Porém, a primavera árabe e a guerra na Síria viriam mudar completamente o cenário de tudo que eu conhecia até então.
Minha amiga convidou-me a sair da Capital  e ir visitar uma pequena vila mais ao Norte do país. Fiquei muito surpresa, quando ao entrarmos na cidade, nos deparamos com uma construção que destoava do restante da paisagem local pelo seu tamanho: a igreja. Ao entrarmos no prédio percebemos que ali havia várias mulheres muçulmanas cobertas pelo seu Niqab caminhando, conversando, bebendo chá e convivendo amigavelmente com as mulheres cristãs. O que significava aquilo?
Normalmente, havia espaços onde cristãos e muçulmanos compartilhavam e desfrutavam inclusive de amizade. Como, por exemplo, restaurantes, escolas, faculdades, etc. Porém sem dúvida alguma igrejas e mesquitas não se configuravam entre esses lugares. Por isso, aquela convivência livre de mulheres muçulmanas dentro da igreja significava algo mais que estava ainda por ser descoberto.
Minha amiga então me explicou que, após o início da guerra na Síria, muitas famílias precisaram fugir para este país, e sem ter para onde ir encontraram esta pequena Vila. Ao chegarem lá, por falta de um espaço apropriado para fazer o cadastramento dessas famílias, foi pedido à igreja local que realizasse esse serviço em suas dependências.
A igreja aceitou prontamente esse desafio, e foi além, angariando materiais de primeira necessidade (colchão, roupas de cama, louças) e cestas básicas para distribuir  àqueles que chegavam à cidade sem nada, a não ser a dor de ter deixado a vida para trás na Síria.
A igreja da Vila não foi a única a adotar uma postura de socorro aos refugiados. De fato, diante da situação de necessidade absoluta, algumas igrejas cristãs locais (que por muito tempo não tinham nenhum envolvimento com muçulmanos) despertaram-se e começaram a oferecer ajuda a esses refugiados. O resultado não poderia ter sido melhor: Em um dos campos que visitei, a igreja está organizando grupos e fazendo discipulado nas casas de muçulmanos que já estão aceitando a Cristo. Muitos não se tornaram cristãos, mas já veem a igreja com outros olhos e, mesmo sendo muçulmanos, trazem seus filhos para classes bíblicas e cultos infantis, não raramente permanecendo com eles e ouvindo a Palavra.
Esse cenário encheu meu coração de louvor! Como é maravilhoso ver o Senhor agindo através das dificuldades. O que parecia ser o momento mais escuro na vida dessas pessoas foi precisamente onde elas encontraram a Luz maior.  Então eu vi ali um despertar duplo: por um lado os muçulmanos aceitando ouvir falar de Cristo e se relacionar com a Igreja e, por outro, a Igreja tomando consciência de sua responsabilidade a assumindo seu papel como corpo de Cristo dentro da nação.
Conhecendo as Famílias
Da surpresa na igreja, recebemos o grato privilégio de visitar as famílias nas casas. Havia um projeto de distribuição de cestas básicas. Por conhecer a cultura, o pastor (que também é cidadão local) compreendia que entregar as cestas na igreja para que as famílias levassem para a casa, seria uma situação demasiadamente vexatória na cultura baseada em “vergonha e honra”. Por isso, a opção adotada foi que levássemos as cestas às casas, pois uma vez que entrássemos nelas, sentássemos juntos e tomássemos chá, já não seríamos mais estranhos doando cestas básicas, mas amigos compartilhando a comunhão, o chá e o alimento.
Nas primeiras casas que visitei, percebi que ainda assim havia um clima constrangedor por parte das mulheres em receber aquela tão necessária ajuda, apesar de ser fundamental receber aquele alimento para garantir que seus filhos tivessem o que comer.
Percebi, talvez por empatia, a dor daquelas mulheres. Percebi que seu sorriso não era tão aberto e escondia alguma coisa além da gratidão. Escondia a vergonha em receber alegremente algo pelo qual não se trabalhou para adquirir.
Mas, na Síria (Ah... que saudades da Síria!) elas e seus maridos trabalhavam: havia salário no final do mês, a ida ao mercado e a escolha das mercadorias. Havia a honra do pai de família em prover para os seus. Quando um visitante chegava, podia oferecer-se uma boa refeição como sinal da hospitalidade tão cara para os árabes. Agora aquilo era passado. Necessitavam contentar-se em oferecer o chá aos visitantes, sentar com eles e, em vez da mesa farta, compartilhar doces lembranças e o desejo de que um dia tudo pudesse voltar a ser como antes.
Se aquelas mulheres pudessem trabalhar de alguma forma para ajudar no sustento das famílias, com certeza o sentimento de honra poderia ser restaurado. Mas o que poderia ser feito para que elas tivessem acesso a alguma forma de trabalho?
Nasceu ali em minha mente uma ideia. E se aquelas mulheres aprendessem a costurar e fizessem alguma coisa para ajudar na compra das cestas básicas? Eu imaginava que o dinheiro adquirido com  os produtos da costura não seria o suficiente para fazer diferença nas compras das cestas básicas, mas faria diferença no sentimento de dignidade daquelas mulheres que estariam fazendo alguma coisa para o sustento de seus filhos.
Nasce o projeto de Costura
Com essa incumbência em mente, era o momento de planejar. Onde poderíamos oferecer o curso? Como comprar as máquinas, tecidos, linhas e agulhas? O primeiro contato foi com os proprietários da Lumma Construtora, de Florianópolis, que doaram o valor para adquirir três máquinas e alguns materiais. A igreja ADUK em Londres doou outra máquina e alguns amigos ajudaram na compra dos tecidos.
Materiais adquiridos, precisávamos agora estabelecer o lugar para ministrar as aulas. Não havia recursos para alugar uma sala própria, de forma que precisávamos estabelecer parcerias. A grande igreja - sim, aquele prédio que Deus havia preparado há anos para que os refugiados pudessem ser recebidos em seu primeiro embate no país - haveria de ter um espaço para ensiná-los a costurar.
Com as máquinas no carro fui conversar com o pastor. Haveria ali um espaço? Que grata surpresa quando ele nos levou a uma sala e disse: “Esta sala está reservada para trabalhos manuais, mas eu não tenho as máquinas”. Eu quase gritei: “Eu tenho as máquinas que vão iniciar o projeto nesta sala!”. Ficamos muito felizes com essa informação, pois entendemos ser este o agir de Deus, ou seja, Deus havia nos colocado em um projeto que Ele mesmo já havia planejado e preparado o espaço.
Com tudo pronto, iniciamos o projeto com quatro mulheres. Deveria-se ensinar a medir, cortar, pôr linha na máquina e costurar. O trabalho começou a tomar forma e gosto. Como era bom estar ali, quantos sorrisos, quanta alegria e esperança.
No último dia do trabalho, eu precisava sair novamente do país. Havia, entretanto, um missionário americano que veio visitar nosso grupo de costura. Foi ele quem assumiu o compromisso de ficar responsável financeiramente pelo projeto depois da nossa saída. Assim, com novos recursos, foi possível contratar uma professora de costura e equipar a sala com tudo o que faltava. Os kits de decoração continuariam a ser confeccionados mesmo depois da nossa saída e as mulheres poderiam de alguma forma auxiliar no sustento de suas famílias.
Voltamos ao país sete meses depois e percebemos com muita satisfação que o trabalho continuou sendo desenvolvido pela igreja local. Além das máquinas de costura que deixamos, havia outras, dentre as quais uma overlock e uma máquina bordadeira. Encontramos também uma sala ampla, trabalhos de patchwork, bolsas, roupas bordadas, tudo confeccionado por elas e vendido na pequena lojinha que criaram ali mesmo na igreja. Na parede uma frase: “Deus é amor!”. Quem conhece o islamismo sabe o impacto desta frase na vida de mulheres muçulmanas, sobretudo nessas refugiadas que perderam tudo o que tinham na Síria e precisaram fugir, deixando para trás bens pessoais e pessoas amadas. Entendemos que o projeto ali estava bem e já não precisava da nossa intervenção. Era hora de partir e auxiliar outras pessoas.
Conhecendo "outro grupo de refugiados"
Um "outro grupo" também estão também refugiados nessa nação fugindo da crise que se estabeleceu em seu país. Em sua grande maioria, fugiram para salvar a vida. Ali, entretanto, enfrentam condições duríssimas de subsistência. Apesar da condição dos refugiados sírios ser desesperadora, nesse caso é sem dúvidas pior, pois esses não contam com ajuda básica para sobrevivência, de forma que a maioria das famílias não possui ao menos uma cesta básica, além do fato de que são impedidas de trabalhar legalmente no país.
Na Capital, há um centro cultural que se ocupa prioritariamente "desse grupo". Fomos então convidadas a ir a esse centro e desempenhar um trabalho semelhante ao que havíamos desempenhado na outra vila. A nossa igreja em Londres fez também uma doação, oferecendo àquelas mulheres duas malas com tecido para iniciar o trabalho, além de parte de uma overlock semi-profissional.
Iniciamos o projeto com essas mulheres. A mão do Senhor esteve conosco e elas, que em sua maioria nunca haviam utilizado uma máquina de costura, começaram a preparar objetos de decoração para vender e transformar em sustento para suas famílias. A alegria ficava estampada em seus rostos à medida em que elas confeccionavam cada peça. Um sentimento de esperança tomava parte do grupo: “Eu sou capaz de fazer alguma coisa para ajudar minha família” -  era a conclusão a que chegavam à medida que cada capa de almofada era confeccionada.
Deixamos o grupo com algumas peças prontas para serem vendidas, os moldes e algum tecido para fazerem novas mercadorias, a promessa de um retorno em breve para a abertura de uma linha de confecção de bolsas e sobretudo uma mensagem: Jesus se importa com você, e alcança você através dos seus servos.
Em nossa próxima viagem nos deparamos com uma situação para a qual não havíamos nos programado. Era Ramadan (mês especial para os muçulmanos para jejuns, meditação). Esse tempo traria, sem dúvidas, limitações, uma vez que muito dos serviços no país estariam com horários reduzidos.
Fui então conversar com o pastor da igreja "desse grupo" que me aconselhou a trabalhar com os cristãos e aqueles que já  estavam em processo de conversão, pois estes provavelmente não estariam levando o Ramadan tão a sério.
Então, essa foi a primeira vez que o meu trabalho foi voltado mais para as pessoas que de alguma maneira foram ou já estão sendo alcançadas pelo evangelho. Isso,  apesar de não ter sido o meu plano inicial, trouxe-me muita alegria, pois pudemos ajudar diretamente a nossa família. A situação desses nossos irmãos refugiados é muito delicada. Eles  não têm permissão de trabalho e o acesso à saúde e à educação é muito limitado.
Nasceu assim este projeto vinculado à essa igreja com o objetivo de ajudar na geração de renda. Como das outras vezes, o projeto visava ensinar as mulheres a costurar e confeccionar alguns produtos de decoração como capas de almofadas, bolsas, capas de bombonas de água e outros similares que depois seriam  vendidos e o dinheiro repassado à costureira que o fez.
Quando conversamos com o pastor local, ele solucionou nosso primeiro grande desafio: cedeu o espaço para que as turmas começassem. Não possuíamos, entretanto, nenhuma máquina. Foi Deus quem, em Sua infinita misericórdia nos proveu as quatro máquinas que precisávamos (compramos duas e ganhamos duas). Assim o projeto pôde  começar. 
Nossas irmãs aprenderam rapidamente, e trabalharam com muito  empenho. As primeiras peças saíram meio desajeitadas, como é natural, mas ao fim do trabalho elas já estavam costurando bem melhor, de forma que conseguimos trazer algumas peças para Portugal, vendê-las e enviar o dinheiro de volta para as costureiras. O projeto continua: A sala ficou pronta e elas continuam costurando.
Nasce o Nome
Era preciso escolher um nome para o projeto. Que nome seria esse? Comecei a pensar sobre a minha percepção sobre o projeto: Sempre que olhava para elas, eu via esperança!
Ao relatar o trabalho para algumas pessoas, às vezes elas me perguntaram se era tudo assim tão bonito entre os refugiados, isto é, se não havia miséria. Essa pergunta me chocou. Percebi que não falava das misérias que presenciava e sim da beleza que via na ação de Deus através de pequenas coisas.  E definitivamente era assim que eu queria continuar. Eu queria que as pessoas pudessem ver a ação de Deus. E aquelas mulheres para mim eram como frágeis flores que refletiam em sua singeleza a beleza do Criador.
Conversando sobre isso com meu irmão, ele sugeriu que eu deveria usar as palavras de Jesus: “Olhai para os Lírios do Campo…” Foi então que eu disse: sem dúvidas não são lírios do campo, mas Lírios do Deserto.
Novos desafios
A próxima etapa do projeto foi estabelecer parcerias. A igreja em Londres ficou responsável por enviar 180 Libras todos os meses para que o projeto pudesse continuar acontecendo. E hoje ele se encontra firmemente estabelecido. Nosso maior desafio é, entretanto, conseguir ampliar o mercado de venda dos produtos, para que possa haver o escoamento dos materiais produzidos por elas. Sobre isso devemos ainda tratar nas próximas viagens ao país."





Comentários

  1. Glória a Deus... mais uma conquista... uma porta aberta para o evangelho em esse lugar... conte com nossas orações!

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  2. Deus seja louvando, pequenas iniciativas se tornam grandes,nas mãos do Senhor.

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